Durante muito tempo, o empreendedorismo feminino foi celebrado pela resiliência. Contávamos histórias de superação, de trabalho árduo, de mulheres que construíram algo do zero. E essas histórias são reais e merecem ser contadas. Mas há uma conversa que fica muitas vezes em segundo plano e este Março tive de
novo o mesmo sentimento: o acesso a capital.
Falar de financiamento, investimento e construção de riqueza ainda é, para muitas mulheres, um território que parece não lhes pertencer. E esse silêncio tem um custo, económico, social e estrutural. Em Angola, onde as mulheres representam a maioria da população e uma parte expressiva da actividade económica informal e formal, este tema é urgente. Estudos realizados em contextos africanos e globais demonstram, de forma consistente, que quando as mulheres empreendem, reinvestem os seus rendimentos nas famílias, na
educação e nas comunidades. O impacto não é individual, é sistémico.
Por isso, quando facilitamos o acesso das mulheres ao capital, três coisas
concretas acontecem.
- Mais empresas são criadas e escalam
Muitas mulheres têm ideias sólidas, conhecimento de mercado e competências para liderar negócios. O que falta, frequentemente, não e capacidade, e financiamento. Sem acesso a capital, as ideias ficam no papel ou crescem muito abaixo do seu potencial. - As economias tornam-se mais resilientes
Negócios liderados por mulheres tendem a criar estruturas mais sustentáveis, a gerar emprego local e a manter vínculos mais estreitos com as comunidades onde operam. São empresas que constroem ecossistemas, não apenas lucros. - A base económica de um país expande-se
Quando metade da população tem acesso limitado a financiamento, estamos literalmente a desperdiçar capacidade produtiva. Num momento em que Angola procura diversificar a sua economia, ignorar o potencial das empreendedoras não é apenas uma injustiça, é uma má decisão estratégica.
A conversa precisa de mudar de tom.
Não basta aplaudir as mulheres que conseguiram apesar das barreiras. É preciso questionar as barreiras. Quem tem acesso ao capital de risco? Quem senta à mesa quando se tomam decisões de investimento? Quais são as frameworks – nos bancos, nos fundos, nas politicas públicas – precisam de ser redesenhadas para que mais mulheres possam construir empresas escaláveis?
O empreendedorismo feminino não precisa apenas de inspiração. Precisa de infra estrutura: acesso a crédito, redes de investimento, mentoria especializada e ambientes institucionais que reconheçam o seu valor económico.
Artigo de: Diandra Vaal Netos Simões